Minha Apologia

  • 4
Já fiz tantas poesias nessa peça de teatro que chamamos de vida, nesse palco completo, livre e verdadeiro. Já me entreguei a tantas coisas, algumas contemporâneas, outras mais antigas, porém todas partes de mim. Tantas poesias que nem sei se assim as posso chamar, mas sei que feias ou bonitas, elas revelam algo de mim, às vezes bem pouco, às vezes um pouco mais. Em minha mente está algo bem mais arraigado que tudo isso, uma total imbricação ao todo e ao vazio, as sensações através do vidro, ao meu amor, a minha fulana, a minha rapariga, ao meu eu, ao meu outro eu, ao eu distante de mim. É pessoa, é bicho, é coisa, é sentimento, é distração, é munição, é tempo, é se perder no tempo, é vagão de trem confuso, é andar entre o equilíbrio e o escândalo, é perturbação, é angústia, é o concreto e o abstrato.
Não falo de um amor, como aqueles que a gente sente por homem ou mulher. Não falo de indecisão, falo de introspecção de barreiras intransponíveis. Falo de sentimento ao acaso, ao vento, mas não é sentimento de momento... Às vezes as certezas fogem as nossas mãos como um pássaro que acabara de ser solto, sem saber se deixa seu dono e sua gaiola a qual está acostumado, só sei que as certezas somem. Antes, isso me matava diariamente, mas percebo que coisas certas não atraem, não tem gosto, nem brasa, nem paixão solta no vento, nem amor de raiz. O que me atrai é saber do que não sei, do que não pego, do que sinto.
De ti dependo, te peço, me dedico a todo instante, com encanto e desencantos, para não quebrar o cristal que te liga a mim. Não me deixa se não eu morro, por ti sou piegas. Isso é piegas? Você é forte e me domina, me coloca em teus braços e me amarra, me solta e me deixa como folha desprendida de seu caule, construímos nosso mundo unidas, com brigas, tapas e surras, com carinhos, beijos e abraços.
A minha mulher, a minha vida, minha paixão, meu AMOR. Tu és o que me acalma e me calunia, me acalanta e me faz chorar, choro bom de gozo do que não sei. Tu és minha dedicação, minha entrega, meus delírios e desatinos. Tu és meu ódio, meu apego e meu não entendimento, meu forte e meu fraco, meus pontos de encontro e desencontro, tu és minha, mas eu te divido. Oh quão bom é não ter ciúmes de você, mentira! Eu morro, eu me mato, eu grito e me calo de ciúmes de você. Minha faca, minha isca, minha HISTÓRIA, minha VIDA.

Ilustríssimo Eu...

  • 3
Ilustríssimo eu,
O que são conexões a quem se perde constantemente?
E os instintos que me salvam e perduram ao mesmo tempo?
Do lado oposto de minhas indecisões,
Como um caso impreciso de amor e ódio e,
De sensações vagas e de olhares profundos.

Ilustríssimo ser que vive dentro e fora de mim,
O mais longe que consigo te enxergar,
É no burburinho e no sossego,
Sigilo e segredo que apontam,
Ora afloram, ora desbotam,
Ora se escondem dentro de mim.

Mas eu sei, ele está aqui,
Só tenho que finalizar baixinho,
Para que meu burburinho não acorde e,
Eu tenha que passar a noite cantando,
Músicas de acalanto em voz suave,
Mesmo que o conteúdo da canção seja um tanto grave.
E você não mais se acalme,
Até vir pedir a divisão de meu café,
Que já fiz pouco, só pra não ter de ficar acordado,
Lembrando de minhas rimas, falhas e pecados.

Ilustríssimo eu,
Devo dizer que saio de fininho,
Como uns delineiam, despercebido.

Dispersa em meu Equilíbrio

  • 4
Selada pelo gozo bendito está a maldita expressão de meu equilíbrio, ferido e exposto com dor e admiração. Mergulhado em êxtase de olhares fumegantes, cercado em desequilíbrio da mente, (comum)mente. Ferida dispersa de traços de corpo vendido, de abominação parida e partida e dispersa e macabra e bonita e louca e sã.
A alma grita, está rouca de tanto silenciar, os silêncios claros do casulo da noite solar. O sol que arde, que flameja e que paira sobre as figuras doces da canção calada, que está em total desequilíbrio com a junção da loucura, paixão, do acabamento e da dispersão.

Do Tom

  • 2
Seríamos nós gigantes no tempo?
Os que passam, alentam. Os que derrubam, destroem.
As almas impuras, pessoas dúbias, claras e profundas e, de atento fraternal.

Seria de bom tom termos a senhoria do vento?
Como se o tom destacasse tudo e, como se um mar de águas escuras nada conseguisse tornar secreto. Será que existe o tom?

Que tão bela e tão temida criatura é o vento. Sim uma criatura!
Não falo do vento que sopra, espalha, leva, trás. Não é ao vento que refresca que faço minha referência.

Existe algo que passa, alenta, derruba e destrói. Existe nisso impureza e dubiedade. Existe também a clareza, a profundeza e o inferno dentro da nossa cabeça.
Também deve existir o tom. Que deve está claramente descrito na variedade de almas. Isso se existirem as almas.

Existe o vento que sopra, espalha, leva, trás e refresca. E dentro da nossa cabeça há algo que certamente se reconstrói.

Parentes de Primeiro Grau

  • 3
Do nada tudo se decifra e, é do nada que entendemos a precisão de romper com o sangue que jorra. Somos filhos da iminência, adoradores da magnitude.
Acabei de quebrar um emblema e, dormindo atento acordei sem entender. O emblema parece não me pertencer – essa não é uma informação confirmada, nada é confirmado –, mas como sempre está aqui dentro do mundo, o mundo sou eu. Não sou inimigo de mim nem mesmo teu, não sou o realce do medo, essa face de meu lado obscuro esfacelou-se no chão.
Devo ser talvez alguma parte perdida de uma face distinta de dentro de meu coração que insiste em se recuperar. Até parentes próximos da idiossincrasia consultei mas, seria muita pretensão estabelecer uma certeza. Nós somos o que guerreamos dentro de nós, o que somos capazes de entender e duvidar, de contestar. Somos um misto do nada e do mundo, do tudo e do absurdo. Sei que não tenho dúvidas, mas as certezas estão bem longe de mim, a dois passos no escuro, quando se encontra o clareado. Mas não confunda isso como uma tentativa desesperada de nomear o absurdo! Não é isso! Quando digo que não tenho dúvidas evidencio que elas sumiram porque se tornaram minha curiosidade e anseio latente.

Sei Lá!

  • 5

É tão bom falar comigo, tentar procurar o desconhecido em mim.
Eu busco equilíbrio, até o fim. Se bem que não sei se o fim existe, mas se existe certamente está dentro de mim. Queria eu fazer o que sempre quis, achar o que me faz falta, mas percebi que essa procura constante é o que me faz acordar. Percebi que minha felicidade consiste no equilíbrio. Mas, a causa de minha felicidade não é algo que eu consiga explicar, não porque não queira, mas porque não consigo, felicidade se sente!

Meu equilíbrio consiste em respirar o mundo em sua total maneira, pelo menos na maneira que me compete.
Respirar! Gritar! Sei lá!

Eu amo respirar vestígios de mundo, encontrar novos indícios, decifrar o indeciso.
Minhas dúvidas e minhas certezas incertas: levo tudo pra longe e perto de mim. Me carrego, me encontro, me perco em encantos e desencantos. Me perco e me encontro dentro e fora de mim.

Cada Um

  • 4
Minha casa está meio agitada, meio vazia,
Não consigo descrevê-la perfeitamente.
Minha alma inchada não possui respostas,
E não se cansa de procurar.
Eu não sei nem ao menos onde continuar buscando,
Mas certamente vou achar.

Em algum lugar da minha casa está
Algo que não sei se é amor ou ódio.
Nunca deu pra ficar parada olhando o tempo passar.
Eu envelhecendo e ele novinho como sempre?
Onde está minha casa?
Ela reflete em minhas expressões?
E minhas feridas rasgadas, onde se esconderam?
Você me diz pra levantar sem ter noção do quão difícil é,
Mas você está certa,
Eu não vou te dizer adeus,
Porque o mundo está na minha mão.

Eu andei e parei para refletir,
Para me responder em momentos indecisos,
Eu constatei que todos os dias é uma luta,
Luta incomum:
Procurar sem perturbação a minha casa.
Se vou achar não sei, às vezes a certeza me some,
Mas se eu não encontrar,
Certamente não será porque me abati e desisti de procurar.

Um copo, uma mesa, uma companhia: eu.
Amores e horrores caminham juntos,
É a certeza que me trás todos os dias aqui,
Eu não sei mais de nada,
Mas sei que tudo está aqui.
Minha casa, minhas expressões e minhas feridas rasgadas.