Ogni tanto*

  • 0
Já passa da metade da noite e de repente me pego pensando
Em nada!
Nesse momento, há algo em mim que parece explodir.
É algo triste e vazio. É como se nada do que houve até hoje valesse a pena,
Embora eu saiba que valeu.
Mas não o tanto que eu gostaria.

E agora estou suspensa e sem arrependimentos.
O vazio que me preencheu de mais vazio não foi em vão.

Sou avessa ao convencional,
Não gosto de modas. Às vezes percebo que até não gostar de modas é uma forma de rebeldia convencional.
Mas é que não encontro mais nenhuma.
Não posso afirmar o que sou ou o que não sou.
Talvez não seja nada, talvez eu seja o mundo.
Sei que dentro de mim há vários universos,
Não sei se pertenço a algum desses universos,
Não sei ao menos se pertenço a mim mesma, mas é certo de que se nem ao menos sou de mim não pertenço a ninguém.
Até agora não consegui dizer o que realmente quero,
Talvez a moral dessa história – se há moral – é que passarei a preencher pequenos vazios com grandes terremotos.

E desse poema sem ritmo no fim soa uma melodia.

* Ogni tanto (Ocasionalmente), música que escuto nesse momento, da fantástica Gianna Nannini.

Um poema de amor

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A noite se aproxima e as luzes, tímidas, acendem.
Iluminam ainda de maneira pacata, estão caladas.
As luzes não falam, não sentem o que é emanado
Pelo belo par que se encontra abaixo do candeeiro.

Esse poderia ser um poema de amor.
Não o é. Não há amor no belo par.
Ocasionalmente penso, ocasionalmente choro,
Surpreendo-me. Ponto. Explosão.
Corpos e almas que brilham abaixo do candeeiro
Nada mais são do que o que poderia ter sido.

Escrever é o ópio do povo*

  • 1
Existem algumas situações inspiradoras. Não sei de quê,
É como se fosse necessário expulsar algo de tal maneira que a inspiração chega a ser grotesca, já que é forçada. Não por mim! Por ela mesma.

Faz tanto tempo que não escrevo que é como se perdesse a maneira,
Mas para escrever não existe um manual.
Talvez estivesse guardando, não que agora esteja me revelando,
Rebelando,
Libertando,
É uma necessidade. Libertar-se de si mesmo é fundamental.

Talvez seja esse o grito da alma oprimida.
O ópio.

*Referência a frase de Karl Marx.

(A Falta de) Poder

  • 1
As velas acesas e escuras não permitem que eu enxergue os dois passos que se seguem.
Sua sombra se repete sob o testemunho do sol.
Oh, deuses!

Posso far finta di star bene ma mi manchi. Ora capisco che vuol dire averti accanto prima di dormire. Mentre cammino a piedi nudi dentro l’anima.

O poder de manipular o tempo ainda não me foi dado, embora, às vezes, eu tente fazê-lo. E até o ato singelo de respirar me aflige. Como eu queria ter a oportunidade de...

E a culpa que me bate, será que não fabriquei oportunidades?!
Deveria ser menos técnica, menos racional?

Não... Não foi porque eu não sou. Não me tornei e, confesso, não pretendo mudar por esses motivos. A bem da verdade se soubesses...

Mi manchi e potrei cercarmi un’altra donna ma m’ingannerei. Sei il mio rimorso senza fine, il freddo delle mie mattine. Quando mi guardo intorno e sento che mi manchi.

Mas é que esse racionalismo!
Oh, Deuses!
E agora?!

Eu não vou mudar... não por isso, não por causa disso. Mas resolvi mudar.

* Os trechos em italiano são da música “Mi Manchi” do magnífico tenor italiano Andrea Bocelli.
Tradução:


Posso fingir que estou bem, mas sinto tua falta. Agora entendo o que significa te ter junto a mim na hora de dormir. Enquanto caminho descalço para dentro da alma.


Sinto tua falta e poderei procurar outra mulher pra mim mas eu enganaria a mim mesmo. És meu remorso sem fim, o frio de minhas manhãs. Quando olho à volta e sinto que como me fazes falta.

Reparos em duplo sentido

  • 7

Reparei que a lua é linda em suas múltiplas faces
E, não apenas quando se torna plano de fundo
Para um casal de apaixonados.

Reparei que a poeira se mistura às sensações
E que essas sensações são traços perdidos a cada segundo.
É única e por isso é plena.

Sentimento repetitivo é um passo ao indeciso,
A minha mais bela coletânea e o seu clássico sabor
Apresentam-se despidos.

Não há necessidade de olhar o céu como uma obrigação do amor,
Não é preciso pensar mais calmamente,
Pensar pulsantemente como uma obrigação do amor.

Esse amor que o mundo me mostra
É na verdade o que o obrigo a sentir,
Por desprendimento, por equilíbrio,
Mas não por obrigação.

Por obrigação devemos olhar o céu, pensar calmamente,
Infinitamente pulsar, talvez titubear,
Levantar e lutar.

Não por obrigação do amor,
Não porque o momento é singelo,
Mas porque é preciso viver.

Não esmaguemos as entrelinhas esperando boas sensações.
Somos sim, capazes de escrevê-las.

O Copo e a Mesa

  • 2
Um copo,
Uma mesa.

O copo quebra,
O vidro cai,
A mesa se mata.

De repente o que era sólido como o copo,
Líquido como seu conteúdo,
Breve como suas respostas,

Cai.
Tudo quebra junto com o que foi depositado no copo.

O que dizer?
Não sei.

Mas certamente sei o que irei fazer.
Vou agora mesmo construir outro copo.

Ainda não sei como batizar...

  • 2
O texto abaixo trata-se de um casamento. Não se engane. Mas na impossibilidade (quem disse?) de realizá-lo foi necessário encontrar novos meios. E o meio mais próximo estava em minha frente e eu não vi. Esse tempo todo escondido e eu não enxerguei. Mas calma! Casei-me.

A dificuldade em batizar o primeiro filho provém da importância que é a esposa. Ela é tão importante que me causa um amor indescritível. Espero que se torne importante para ti também. Mas com as devidas proporções. Admito, sou uma mulher ciumenta.

Texto escrito em conjunto com o meu par perfeito, Clarice "Leespector".

"Eu preciso de algumas horas de solidão por dia senão 'me muero'.

Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho e, quando o silêncio do mundo é tão grande que causa dor. Eu também sou o silêncio do mundo, seu barulho e seus interstícios.

Não me condene, pois sou a liberdade e vou gritar, dar nome às coisas, mas nem por isso batizá-las. Pois são nativas, assim, intactas, de minha ilha e de minha mente.

Quando eu era pequeno pensava que de um momento para outro eu cairia para fora do mundo. Por que as nuvens não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta. Inteligente, não é? Sim. Mas caem um dia em chuva. É a minha vingança".